sexta-feira, 16 de setembro de 2016

naquele tempo

Não, eu não pensava em escrever pra você outra vez. Não por não ter o que dizer, claro; só porque, depois que você se retirou do nosso romance inacabado, eu pensei que nunca mais escreveria. Nem pra você nem pra ninguém... Mas hoje... Ah! Hoje, depois que nos despedimos, depois de você dizer "eu ainda não te conhecia", tantas frases me ocorreram que não pude evitar! 
É verdade que, desde que você escolheu o meu silêncio, tenho tido saudades. Muitas saudades. Todas as saudades possíveis. sei que eu já disse que tenho muitas saudade de você e de todas as nossas frases feitas, os nossos clichês adoráveis e prediletos! Eu tenho saudade de escrever pra você. Saudade de usar meandros gramaticais para a trama previsível e inusitada que rabisco para vivermos. como se fôssemos um filme, o melhor  roteiro adaptado! Cannes, a Palma de Ouro! Sim, seríamos premiados! 
E eu sinto falta de escrever essas bobagens sentimentais para você. Falta de escrever e ficar imaginando a expressão do seu rosto ao ler essas palavras quase desconexas mas bem colocadas e sintaticamente coerentes. E por isso hoje, quando você disse... Ah! você disse tanta coisa durante aqueles poucos minutos em que os relógios duraram o tempo da nossa conversa em silêncio... Um abraço que me fez sentir mais saudade de escrever pra você. Saudade do tempo em que você não dizia nada e eu escutava você dizer tudo o que eu queria ouvir...
Tão bom encontrar meu verbo reverberando no seu olhar sedutor. Tão bom sentir sua presença na ponta da língua (fiquei com medo de abrir os olhos depois que trocamos aquele beijo, confesso).
O convite ali pronto. E o sorriso embaraçado, sem saber o que dizer. E silenciar amena e intensa, e calar o corpo - a maldita taquicardia e o gemido. A vibração e o desejo em ascensão. E assim permanecemos: úmida e túrgido. E veio a saudade daquilo que ainda não vivemos. E me lembrei de um desejo antigo, que trago desde quando nos deitamos pela primeira vez. Uma noite inteira. Acordar ao seu lado (assim mesmo, com toda a pieguice que a expressão "dormir junto" carrega!). Hoje eu quase falei que tenho saudade de desejar passar uma noite com você. E tenho muitas saudades de sentir saudade! 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

eco

"Meu mundo caiu". Há três anos eu perdi o rumo. Minha escrita desandou. Parece que as frases concatenadas e espontâneas escorrem pelo meio-fio daquela avenida por onde eu caminhei sem saber para onde.
"Meu mundo caiu". Eu não fazia planos, tudo o que ia por dentro era esse meu jeito infantil de acreditar em contos de fadas. E foi por isso que eu desmoronei quando você me apresentou seu roteiro de filme de terror (pelo menos para mim).
"Meu mundo caiu" e toda vez que chega esse maldito 22 de agosto eu choro por todas as sílabas que não escrevi sobre nós.
Eu não queria ficar lembrando; não queria tocar nesse assunto desagradável e pesado, mas as lembranças... sabe como são essas coisas... a ferida parece até que vai sangrar... nunca cicatriza.
"Meu mundo caiu" e nossa canção nunca mais me acordou com as interrogações costumeiras. E independentemente do dia, eu me pego sempre cantando para você o refrão que destaquei para resumir nossas semelhanças. Nossas coincidências simbióticas.
"Meu mundo caiu" quando eu estava longe e você me deu a notícia sem a menor cerimônia. Penso que talvez eu não resistisse se perto. E pela primeira vez, nestes anos que seguiram desde o anúncio, estou perto.
"Meu mundo caiu". Eu não sei o que falar.

sábado, 9 de julho de 2016

dos atrasos (título provisório para uma espera definitiva)

Esperei por você como quem espera a chuva
Nesses dias de pouco oxigênio nas ruas por onde se caminha pensando em encontrar seus passos.
Esperei por você como quem tem tanta fome que nem sente mais o vazio do corpo sem alimento.
Como quem atravessa o rio sem saber nada das águas, sem saber nadar...
Esperei por você contando cada segundo no relógio, seguindo o movimento monótono dos ponteiros em ritmo lento sem alcançar as horas mais mornas.
Esperei por você no portão, no sofá da sala, na beirada da cama... Durante as noites em que você parecia mais distante do mundo exterior que do meu lado de dentro.
Esperei por você, procurei por você em esconderijos e sótãos, em vielas mal iluminadas, nas esquinas sombrias...
Esperei por você.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

apenas mais um título


Faz tempo que não escrevo nada "para você", mas acho que você nem percebeu, não é mesmo? Não faz mal. Não importa...
Tenho muitas outras atribuições no momento e minha palavra tem estado sem voz.
Quando foi mesmo a última vez que você me leu? Nos jornais, nas revistas até nos blogs a vida corre ... notícias aparecem sem cerimônia e se tornam o centro das atenções. Mas não foram as pautas do noticiário noturno que me trouxeram de volta ao texto para você, sabe? Foi um artigo daquele periódico que você não lê em hipótese alguma! Desculpe, eu quebrei nosso trato. Prometi não folhear mais aquela porcaria de revista, eu sei; mas colocaram bem na minha frente.., e quando deparei com a "palavra" que tão bem define você... Ah! Não me controlei e rompi nosso acordo.
E só por isso, por já estar descumprindo as regras, resolvi escrever para você!
Será que dessa vez você vai ler?
P.S. Minha resposta pra você é e sempre será sim.

domingo, 15 de maio de 2016

gratidão

Depois de muitos vazios, o domingo volta a ser normal. O silêncio agonizante no sorriso dissimulado do mesmo lado. Deste lado, as lembranças de uns carnavais ao teu lado são, neste domingo de cinzas, a alegoria viva e fantasiosa de uma noite em pleno compasso. Depois de alguns domingos distantes no calendário, tua presença antecipada traz brilho solar aos cômodos atrofiados. Depois de tantos abismos, tua companhia gentil. Depois de tanta falta a fartura do abraço, o exagero dos beijos generosos, o transbordamento dos corpos em febre carnal apenas a escorrer dentro do leito da noite em véspera de felicidade. Gratidão.





terça-feira, 8 de março de 2016

suave enternecer

Assim como quem incendeia ventos e pacifica estrelas, você brilha e queima na minha cama.
Seus gestos, essa perene expressão de plenitude depois de cada beijo terno, seus gestos. Tento me livrar dessas lembranças delicadas que seus olhares molharam em mim... deságuo na memória.. rio... transbordam-me olhares e mudez.
Nua, me deixo à mercê dos seus fetiches. Dentro desse corpo, carrego saudades nas veias; corredeira de outras travessias. Era um tempo de boas intenções contidas. Contenção com tesão. As palavras escorrem entre os dedos e abafo os gemidos solitários por não ter você a ouvi-los. Os dedos deslizam úmidos pelo mamilos tesos e entumescidos. Tato. Salivo seu nome. Soletro desejo e languidez na ponta da língua morna. Sua falta contorna-me as entranhas... Fecho os olhos. Abro as pernas e gozo. 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Fragmentos de uma textura tecida entre linhas

Horóscopo
Ele é canceriano, diz. Ele diz coisas que me lembram o mar. A doçura das águas que salgam as lembranças... Ele é canceriano. Gosto dessa coincidência zodiacal. Leio no jornal todo os dias: Câncer. Não sei por que ele às vezes me parece melancólico. Mas ele é canceriano. Ou seria de Gêmeos (sempre a noticiar mistérios e mazelas alheias)? Já ouvi dizerem que é Virgem (de tão meticuloso), Leão (indomável e generoso). Prefiro acreditar nos astros: na astrologia somos feitos um para o outro.


Um gosto tocante
Gosto do verbo. Tocar. Intocável. Irretocável. Tocante! Gosto da dualidade dessa conjugação. Gosto da flexão tátil, subjetivamente ambígua. Gosto de tocar. Gosto de te tocar. Gosto mais ainda quando me tocas e eu viro objeto nas tuas mãos. Gosto das tuas mãos tocando as cordas, os pelos, os poros, as notas desafinadas do meu desejo dissonante... tocante!

Entre aspas e beijos
Depois de reler incontáveis vezes o que você disse (escreveu) a respeito daquele beijo, ela me perguntou se você beija bem. Eu preferi mentir.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

sonhos, devaneios, despedidas

"Se o sonho acabou
Não sei meu amor
Nem quero saber
Só sei que ontem à noite
Sorrindo acordada
Sonhei com você"
Não sei se o que você me disse no sonho é o que está acontecendo na sua vida cotidianamente entediante. Não sei se era sonho, pesadelo, devaneio, pensamento encostado na vontade de definir em definitivo o amor sem definição que nos mantém ligados. Essa sensação de estar o tempo todo conectada ao seu mundo ainda gera desconforto, apesar da distância. Apesar do tempo. Apesar do silêncio. É difícil interpretar o seu silêncio, essa é a verdade.
Mas eu ainda não sei se entendi a mensagem que você tentou me transmitir durante as poucas horas que consegui dormir na última noite. A noite passada. Que demorou tanto a passar enquanto eu me esforçava para fechar os olhos e não pensar mais em você.
Pensei que o sonho teria vindo por isso; de tanto pensar em você. Não sei se o sonho foi apenas um pensamento em extensão. Não sei se o sonho foi. Não sei.
Apesar do sonho e de tudo que você me disse, eu não sei se foi só um sonho ruim (estou vivendo dias, ou melhor, noites intranquilas). Os pesadelos não me assombram, apenas me entristecem. Principalmente quando você faz parte deles. Mas eu não posso dizer, não, eu não diria que tive um pesadelo com você. Passar a noite ao seu lado é desde sempre meu sonho. Pena que dessa vez, em vez de matar a saudade, em vez de matar nossa fome mútua, em vez de um desejo ardente entre nossos corpos, eu via você dando adeus. Será que eu entendi direito? Não sei. 
Acordei com você mais presente. Isso eu sei.

sábado, 19 de setembro de 2015

desculpe o atraso

Eu sei que já passaram alguns dias. Sei que você nem se deu conta. Mas eu continuo contando o tempo. Tento fazer de conta que não é da minha (nem da sua) conta. Mas eu continuo a conta. E conto o passar dos dias/anos. E essa conta nunca fecha. Por muito tempo eu pensei em deixar de contar essas coisas pra você. Eu pensava que seria melhor parar com isso de ficar riscando no calendário todas as datas que me remetem a você. Mas as cartas que lhe escrevo (e guardo as cópias em envelopes lacrados) sempre trazem o registro (não dos Correios, mas dos acontecimento - ou dos não acontecimentos). Mês passado, por exemplo, eu me lembrei do dia em que você contou que ia se casar. Por sorte neste dia eu tinha um motivo pra ficar alegre, sabe? É... eu passei o dia sem pensar que lá se vão "xis" anos... E mesmo sem querer lembrar, me lembrei do quanto essa notícia me desestruturou. Eu estava escrevendo o nosso romance. Era pra você. (Como tudo que eu escrevo, só que agora eu não conto mais que é pra você.) E da mesma maneira, há três dias, eu me lembrei do aniversário do nosso primeiro beijo. Ah!! Eu queria tanto que fosse uma data comum, sem nenhuma lembrança... Queria nem mais associar você ao meu cotidiano irritantemente poético. Mas aí vêm essas datas comemorativas e eu fico assim... cheia de lembranças não compartilháveis nas redes sociais. Lembranças que transbordam minha imaginação com clichês fofos e previsíveis (como todo bom clichê deve ser). E venho correndo pra frente da tela derramar as possibilidades. Venho contar pra você mais uma vez que ainda sonho com você (às vezes sonho acordada mesmo, nem dá tempo de fechar os olhos)! Venho depressa escrever tudo pra não esquecer de novo.. só pra lembrar como era bom! Então, antes que você se canse, só vim dizer que pelas minhas contas este é o sétimo aniversário do nosso primeiro beijo. Foi dia 16. Eu não me esqueci.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

ensaio "de volta para o futuro II": um simples pensamento

Não sei o que você vai pensar, mas há algo muito especial, para além de uma simples coincidência, quando se trata de filmes e trilhas sonoras que marcaram a vida das pessoas!
Pensei nisso agora, hoje, assim, sem pretensões, apenas deixando aflorar a nostálgica lembrança do seu beijo (estou aqui me referindo ao "nosso" primeiro beijo), permitindo-me trazer o seu gosto -  sabor bom o de paixão adolescente, né? - para a boca que hoje saliva o sal da saudade. Porque tudo isso foi há tanto tempo...
Não sei se você vai pensar em alguma coisa; porém as insistentes coincidências sempre me fazem pensar, lembrar e, por que não?,  escrever...
A ficção muitas vezes é mais real do que a própria realidade... Não sei se você quer pensar a respeito...  o clichê cabe em qualquer lugar-comum. Por que não pensar que é possível voltar no tempo, então?
A memória me trai um pouco, penso eu. Eu que sempre fui de guardar tudo o que tem a ver com você. Mesmo (e principalmente) que você não pense nisso, que não se lembre de nada.
Porque nunca fomos "um casal". Porque sempre fomos algo desprovido de rótulos ou denominações. Porque éramos inteiros e agora... (agora?) Agora somos menos que a metade.
E eu não sei se você perde seu tempo pensando em mim... Apesar de... Ainda que... Enfim... não sei se você pensa em mim... E quando eu pensava em falar algo que estivesse associado a você, eu usava sempre, sempre mesmo, o título desse filme como uma espécie de epíteto, sabe?... De volta para o futuro, hoje eu penso em você, mas penso naquele Você que estava ao meu lado enquanto na tela desfilavam surpresas coloridas e futuristas... e naquele tempo eu pensava que um dia estaríamos pensando naquilo tudo.
Pena que, passados 35 anos, eu não (me) vejo de volta para o futuro!