segunda-feira, 14 de maio de 2012

só mais um capítulo


De todas as impossibilidades, você era a única certeza. E você ficou. E se manteve: alvo das paixões inatingíveis. Você com sua franqueza sedutora e seus horizontes repletos de promessas jamais cumpridas. Armadilha absolutamente previsível, nem posso acusar o destino de tal desgraça. Não há álibi que sustente minha falta de racionalidade.
De todas as inconstâncias, você era a ausência mais perene. E foi você que permaneceu. Entre silêncios, vácuos e abismos... você ininterruptamente se fez faltar, fazendo da sua rara presença o prêmio almejado.  E eu esperei seu corpo, esperei suas palavras... justificativas e mais argumentos. Mas a história já estava encerrada. Eu só fechei os olhos pra que a realidade não ofuscasse minha teimosia.
De todas as mentiras, você só verdade. Das farsas e falsas tragédias, você: drama complexo. Enredo traiçoeiro, mesmo quando explicitados os papéis representados. A cena. Você, simples figurante, abre as cortinas e arranca aplausos. Eu me impressiono sempre com sua performance romanesca.
De todos os roteiros irrealizáveis, você era o desfecho concretamente inviável. Assumiu o script e redirecionou os atos. Entrou em cena e roubou o foco do palco. Criou situações imperfeitas para os conflitos que a tela pedia... e com perfeição se transformou no herói da minha novela, quando, desde o primeiro instante, eu sabia que você é vilão.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

passado a limpo

Você sabe que eu fico sempre à espreita. Aguardando, pretensiosa, sua correspondência diária selada com um beijo, seu sorriso em envelope lacrado. Procuro por você em livros, jornais, revistas, entrevistas, letras de músicas, cartas, poemas, pôsteres, portais, outdoors, Outlook, Orkut, Facebook, MSN, Twitter, Google, blogs, em todos os papéis e spams.
Você sabe que meus desejos, literalmente sem escrúpulos, subordinam sua liberdade de expressão. Eu atravesso seus canais de comunicação. Ilicitamente, visito seus amigos, vasculho sua agenda, seus contratos, seu currículo, sua ficha catalográfica.
Você percebe que eu reviro seu vocabulário, sabe que violo seus capítulos, rasgo o verbo que dialoga com a primeira pessoa da sua antologia. Abro mão da ética e, sem habilidade, manipulo suas frases feitas e deixo minhas impressões digitadas em suas páginas.
Você releva minha incompetência prosaica, a superficialidade do meu discurso, a desclassificação dos meus gêneros textuais, meu impetuoso hábito de tirar seu foco narrativo do meu ponto de vista.
Você sabe que suas locuções intransitivas e transitórias produzem orações intransigentes e excitam minha inquisição sintática. Por isso, contesto o contexto dos seus vícios de linguagem, cometo plágio, imito seu estilo e reordeno seus predicados. Eu arquiteto planos para seus projetos e me protejo em seus rascunhos.
Mas você conhece a limitação da minha verve. Sabe que eu me inspiro em você, aspiro as ideias que você defende, depois conspiro e, sozinha, piro. Então, eu conjeturo estruturas poeticamente viáveis para sua insegurança estilística e engravido das palavras que você cria. Seus neologismos apenas acentuam as intrigas que você compila.
Eu reconsidero sua narrativa e gero minhas próprias expectativas. Busco, nos seus argumentos, o lugar-comum em que eu caiba sem legendas nem tradução. Incorporo eruditos clichês e me adapto ao seu roteiro original. Figuro entre seus devaneios coadjuvantes, enceno a megera que extirpa sua imagem de herói. Represento a fada inconsequente do seu storyboard. Eu reinvento nossos dramas.
Você sabe que minha falta de imaginação não condiz com o desenlace desse romance. Eu me intrometo em todas as interrogações do happy end que você excluiu. O parágrafo em que o felizes-para-sempre é tangível mesmo que não haja mais história. Mas você finge não entender minha proposição e profere o inexorável ponto-final.
No entanto, eu resgato as lembranças empoeiradas das entrelinhas que se demoraram em silêncio e reescrevo a versão mais bem-sucedida do nosso epílogo. A enunciação de uma cumplicidade que planeja desfechos mais plausíveis para essa novela.
Você sabe que eu edito suas emoções, corto da epígrafe fragmentos que você publica para uma anônima musa, sem dedicatória. Meu ciúme capitular ultrapassa as margens da sua folha de rosto e eu me embaraço nos traços das personagens boçais que você esboça. Eu ressuscito fantasmas da sua biografia. Subverto a moral da sua fábula... Perco a noção do tempo e estabeleço outras demoras fora de hora.
Você sabe que me enredo no enredo que você tece. Engendro episódios surreais para as mil e tantas cenas de suspense dos contos que você fantasia. Misturo o vermelho da minha veia poética ao negrume do seu filme de terror, e você até sente o arrepio que me tira a concentração enquanto acordada eu sonho estar no primeiro ato da tragédia que você anuncia.
Você sabe que eu sempre volto e retorno ao círculo vicioso do nosso duelo pré-textual e, com sorte, viro o jogo e roubo-lhe o mote. E discorro sobre sua textura bruta, a pedra implacável que você guarda com cuidado no subterfúgio do seu narrador inconsciente.
Você sabe que eu censuro os termos chulos do seu ensaio. Julgo seus sujeitos mal conjugados e condeno a inverossimilhança dos seus atos. Por fim, me prostro diante dos sentidos subliminares da sua alegoria.

domingo, 20 de novembro de 2011

para os dias azuis

Respirar a sua presença, apesar de você não estar, mas ser em mim e do meu lado (de dentro). às vezes é preciso apenas respirar. As palavras dançam uma música constante e silenciosa, se embaraçam em nós. Palavras são volúveis demais para o meu amor perene e longínquo. você está em todos os rastros, em todos os passos, você está em cada verbo que calo. Conjugo meus pensamentos no seu imperativo modo. Oculto sujeito.
Verso sobre versos que não fiz... Tudo brilha em mim se é você.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

tato

Na extremidade distante. A sutileza do tato sem contato. A pele é órgão sem sentido quando suas digitais se ausentam dos meus poros... e eu decoro a falta do seu toque sobre mim com a lembrança recente do seu calor – chama que me chama quando você queima no interior de mim. Um abraço que permanece latente aproxima sua ausência e eu não sinto mais nada.

sábado, 6 de agosto de 2011

Amalgamando

Feito a poesia, ele entrou no meu discurso. Seu poema enxuto e cortante. O silêncio triste do homem se expondo, exatamente porque ele se esconde em cada verso e só nas entrelinhas se percebe sua delicadeza. Sua metáfora rude. Sua falta de estilo ao dizer coisas tão doídas me confundindo. Minha forma mínima cabe tão bem e também cai em seus haicais. A poesia se misturando em nós. Paixão. Suas letras foram se imprimindo na minha escrita... As mãos exprimindo gestos tão intensos que me escapavam à inspiração. Fomos ficando verso e poesia. Rima e poema.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Ao meio-dia

O relógio marcava meio-dia. Na minha consciência esse era o melhor horário para dizer coisas sem nexo. Escrever todas as cartas que jamais postaria. O tempo. A linha efêmera do cartão-postal.

Eu tenho apenas algumas linhas pra contar a ele que, agora que vejo um mundo palpável em minha frente, posso gostar de janelas. Talvez ele também quisesse conhecer essas quedas-d’água... essas flores... a vida desenhada em forma de arco-íris...

Na parede mais distante a constatação de que ao meio-dia as possibilidades são absolutamente imperfeitas, mas reais. Apesar disso, todas as minhas lembranças não caberiam nas escassas linhas do cartão que eu escolhi para lhe mostrar que esse lugar onde ele não pode entrar é encantador.

Aqui o tempo é estático. E a felicidade dura pra sempre, pois é meio-dia há horas.

Meio-dia: mais de meia vida perdida entre um tique-taque e outro. Mas os ponteiros estão unidos. Um sobre o outro... E eu estou tentando dizer que nossos ponteiros não se tocam em tempo algum. Estiveram sempre descompassados. Anti-horários sentidos.

Percebo que não há nada a dizer-lhe depois de vivermos juntos. Ao meio-dia é possível dizer essas incoerências sem restrições legais. À luz do Sol não há contestação.

Fosse na calada da meia-noite e ele já estaria gritando: “Isso que você está dizendo não passa de uma grande bobagem. Você me ama e não quer que eu vá embora coisa nenhuma.” Mas ao meio-dia ele não pode gritar porque ninguém vai ouvir.

... Pensei em ir à cozinha fazer um café. Era meio-dia e eu não sabia o que dizer para ele. As sensações roendo o pensamento. Por dentro, apenas pulsavam as horas que não voltam para desfazer o estrago.

A enfermeira me pôs um comprimido sob a língua na tentativa de ajudar o silêncio a não me despertar. O soro no fim da veia... o pulso: era hora de trocar o curativo: meio-dia.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

silêncios

Ontem, véspera de Santo Antônio, eu ouvi o canto de um silêncio monstruoso que feriu e ainda dói muito no peito daquele homem...

O homem é comum, não me aproximo de homens que assim não se revelem, mas se classifica como alguém "não comum e nada convencional". Rotula-se "não tributável".

Ontem, depois de horas discorrendo sobre qualquer assunto que não implicasse intimidade, de repente, ele calou. E cantou... silenciosamente ... uma canção de desespero e tristeza que não tinha mais tom... desafinou... perdeu a voz dentro do seu silêncio (ab)surdo.

Tomou uma xícara de café forte, que até hoje não sei se ele gosta ou se pede e bebe sem reclamar por educação e gentileza.

Depois, com a mesma expressão que se vê no rosto de um homem feliz , ele me contou que fora expulso de casa pelo pai aos quinze ou dezesseis anos. Por causa de uma dona que o pai imaginou estar de coisa com ele. Motivo torpe? Claro, mas quem se importa com motivos? Na rua, apenas com suas poucas peças de roupa, sem dinheiro, sem nada.

Olhei bem para o seu rosto naquele momento e posso garantir que ele não demonstrava nenhum rancor, nenhuma raiva. Não vi o menor sinal de revolta em sua face meiga e branda.

Ao contrário, seu semblante irradiava uma luz quase ofuscante de tanta serenidade, de tanta doçura.

E, depois de relatar sua história, ele sorriu.

Não pude compreender sua dor. Sou da linhagem dos que tiveram uma infância feliz, em família, com direito a escola, comida, brinquedos caros, roupas... tudo que uma criança pode querer para chegar à adolescência e se rebelar. O homem nunca vai poder saber o que é isso.

E o silêncio que aquele homem cantou para mim ontem está remexendo aqui dentro. Primeiro senti uma forte dor de cabeça, como se ao pensar nele meus neurônios se inflamassem. Depois veio o aperto no peito (lugar comum para a situação insólita!). Mais tarde, quando ele foi embora sem me abraçar, sem me desejar boa-noite, sem olhar nos meus olhos, doía tudo, parecia que eu havia ingerido uma dose de um nada digerível veneno (coisa da minha alucinação, eu sei... nunca bebi veneno para associar a sensação ao entorpecimento que me tomava). Então finalmente eu gritei para não morrer sufocada com o silêncio que ele deixou em mim.

terça-feira, 31 de maio de 2011

(des)encontro

Sempre gostei de histórias de amor. Das que acabam bem, das que acabam mal, das que acabam. (Acho que todas têm seu jeito próprio de acabar!)
Gosto de histórias de amor com flores, perfume, surpresa e pressa... que acontecem devagar e fazem divagar...
Gosto de escrever sobre (des)amores e sobre amores impossíveis de acontecer. Gosto de escrever de mim sobre “você”, a nosso respeito... gosto de dizer minúcias e detalhes impublicáveis para ninguém ler.
Gosto de ler as histórias de amor que ainda e sempre serão escritas. Gosto dos verbos deslocados entre sujeitos dispersos e diversos... sujeitos que fogem de versos e vão conjugar sua pessoa em outros tempos e modos inexistentes. Metalinguagem. Gosto de linguagem metafórica no mais real dos contos de fadas, maravilhosos e fantasticamente incontáveis na prosa linear dos romances que nunca serão escritos.
Gosto. Gosto de histórias. Gosto de histórias de amor.
(e por isso gostei do seu conto!)

sábado, 28 de maio de 2011

porta entreaberta

Quando ele saiu da minha vida, eu não imaginava: Quanta dor. Saudade. Falta. O beijo que não vinha e a boca seca lembrando a perfeição do desejo e o acaso das impossibilidades.
Quando ele saiu, sem reverência, da minha casa, pedindo compreensão e distanciamento... causando feridas nas paredes do meu pensamento ingênuo (que acreditava não ser pra sempre o adeus)... rasgando os tecidos da minha sanidade e lucidez...
Quando ele se foi, por fim, pondo fim ao que estava acabado há tempo, por falta de tempo pra nós... ele esqueceu de fechar o ciclo, deixando uma fresta teimosa entre nossas necessidades... um hiato... uma palavra acenando diversas interpretações e a porta entreaberta pra você entrar.