(primeiro ato)
sorrateiramente, sua mão se distancia e não toca mais meus sonhos. pleno de argumentos vazios, seu olhar escapa da mira que alvejo: meu desejo. pacientemente você desconstrói - tijolo a tijolo - o alicerce frágil e utópico que erguemos. não sinto seu cheiro exalando dos meus poros e esconderijos.
(defecho)
Ao acordar, não dirijo a palavra a ninguém. Só me resta escrever essas emoções despedaçadas que restam, me arrastam... pro abismo. E eu cismo que você lerá estas linhas! Por isso, antes de assinar embaixo, ergo a cabeça e confesso: eu não sou essa doçura que você provou. Meu fel escorre entre o verbo e a rima... depois contamina sua poesia verborrágica e instantânea. Eu falo isso pra você não pensar que quis enganar. ...Foi melhor você ter ido antes de experimentar meu veneno
sábado, 23 de abril de 2011
terça-feira, 12 de abril de 2011
sobre os atrasos
Quem nunca teve um amor que demorou a chegar que atire a primeira estrela! Amores sempre chegam fora do tempo. Atemporais e nos temporais de ilusão, medos, indecisões... Amores quando vêm são inescrupulosos e tardios, nunca se antecipam; não acontecem no calor vívido da esperança... "amor chega tarde" (será que é isso que disse Drummond?)
segunda-feira, 7 de março de 2011
blecaute criativo
Diante do computador, deixo-me ficar inerte e compulsivamente à espera de algo. Não sei bem se o que me move é essa inércia incontrolável ou um suposto controle imóvel que me paralisa. Contradições à parte, não saio da frente da tela com a impressão de que ao sair algo extremamente importante irá acontecer. Os arquivos que não abro para trabalhar. As pesquisas que deixo de realizar. Tudo é motivo para praticar a morbidez da espera virtualmente acessível e intocável. Virtualidades inexplicavelmente reais. Imagino você ao alcance das minhas mãos. Penso em seu corpo. Pele macia, toque caloroso. Beijo. Sua boca passa entre os emails que não leio. Língua morna em sua sede plena. Desconcentrada, não respondo aos contratos. Incorrespondência acumulada nas caixas postais. Mensagens inúteis lotam minha insensatez. Eu deleto. Remetentes desconhecidos, spams. Mensagens religiosas não prometem mais do que entretenimento. Só a falta de energia elétrica acaba com essa rotina doentia.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
olhar
Basta abrir as pálpebras. Só tenho olhos para você! E como minha visão (míope por opção) não enxerga seu corpo à distância, vejo você bem de perto, quase dentro de mim. E assim observo sua forma e seus contornos distorcidos quando você se afasta, por instantes, do entorno. Mas é só fechar os olhos novamente para que eu contemple mais uma vez a sua proximidade tênue aqui. Exploramos esse momento terno, quase eterno, enquanto a sua doçura agreste visita a menina dos meus olhos – retina desgastada por uma saudade bem singular.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
ex(er)citando...
Eu queria saber só mais um pouco disso tudo. Da vida que arrasta desejos pra dentro do peito e depois transborda ausências contínuas. Queria saber da “nossa” festa efêmera. Brincadeiras libidinosas no quarto desarrumado. Desarrumada. Sinto-me desarrumada. Desorganizada, mas destemida. E claro disléxica... As palavras dançam na minha cabeça, e quando quero pô-las no papel, na tela, não sei mais que palavra era o que eu ia dizer... não sei mais escrever. Desescrita sou descrita assim: eu, que era tão boa na sintaxe justa dos conectores e subjuntivos, vejo-me inexpressivamente confusa com as regências, os modos e os tempos... (só para os verbos há tempos plurais, que constatação mais triste!) Eu queria saber mais de esperas, menos de saudades e abstinências... Eu queria saber mais ou menos de você.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
sufoco
detesto os dias brancos de você. dias sem sorrisos. eu detesto dias sem verso ligeiro. detesto o dia inteiro pela metade. dia de inverno frio ardendo verão em saudade e ausência. eu detesto. detesto escrever em vazios sem-sentidos. detesto o que não é dito. o que está inescrito nas entrelinhas sem subterfúgios. detesto silêncios na tarde. tarde de espera. detesto que você tarde. eu detesto.
domingo, 9 de janeiro de 2011
"na primeira manhã que te perdi"*
Estranhei o costume rotineiro de acordar sozinha. Como se a sensação desconfortante de solidão fosse tão distante que não cabia mais nas manhãs de domingo. O sonho nitidamente interrompido antes do fim. O travesseiro imóvel. A janela. Escuro. Era muito cedo pra me levantar num domingo. A cama, repassando cada cena daquela história, amortecia o vazio do quarto. Pensei em você. Seu cheiro nutrindo lembranças mornas... Seu corpo exalando a permanência na minha pele. Suas mãos folheando meus instantes de lucidez. O gosto brotando, a intocável suavidade deslizando entre os lábios. Sua voz decifrando a melodia dissonante das minhas manhãs solitárias. Num intervalo constante e profundo. Silêncio. Pensei em você. Seus olhos contando doçuras e mistérios, enquanto meus segredos atravessavam seu olhar. Não vi arrependimento, nem culpa... mas o perdão fora concedido quando eu inadvertidamente cedi e me entreguei a você.
* Da música de Alceu Valença
* Da música de Alceu Valença
domingo, 19 de dezembro de 2010
pílula do dia seguinte
Depois da noite de sexo pleno que tivemos, ele acorda distante... no nosso mesmo lugar. Indefinido. Em mim, pulsam sensações descabidas e desarrumadas sobre esse estranho que dormiu comigo. Eu oscilo. Descaminhos invertidos rondam os pensamentos pervertidos em mais uma completa frustração. Passo a vista pelo entorno sem abrir os olhos. Não há nem sequer um objeto para reter na lembrança. Não há nada além do cheiro de esperma e seus sinais inconfundíveis desenhados nas coxas, no ventre... É tudo para não fazer esquecer. Lá fora do quarto e de mim, sol. O dia claro contrasta irritantemente com meu cenário interior. Cinza, nublado por tantas (im)possibilidades obscuras. Ainda antes de acordar, escrevo. Densidade nos dedos, peso das teclas que são tocadas para dizer o que preciso vomitar, pois me causa insensato mal-estar o corpo dele não mais estar. Resisto à obviedade da dor. Hesito entre a delicadeza do tato e o asco da falta. Transito pelo léxico em busca de outros sentidos. Nada faz sentido. Por hoje, nada mais a dizer.
sábado, 11 de dezembro de 2010
resposta
Minhas ideias continuam paralisadas. Nada a criar. Os versos de hoje pedem um longo minuto de silêncio. Infinitamente silenciosa eu fico. Sou uma mulher previsível, assumo; embora a estranheza me encante.
Você define/descreve muito bem o instante caótico desse (des)encontro. Concordo de imediato com sua teoria peculiar: alegria e bem-estar nos levam a perturbações imensuráveis. Indescritíveis. Eu já tinha noção disso desde o primeiro beijo...
No mais perfeito dos mundos, estar feliz só causaria uma sensação eufórica e efêmera de paz, alinhando hormônios, músculos, circulação sanguínea... Mas agora que você faz parte do meu discurso (e eu sem saber como você), a contradição está posta. Quando me dei conta, seu vocabulário já estava contemplando minha escrita, já vislumbrava a confusão plena. Não houve tempo para uma reflexão fria e calculista como conviria. Com o distanciamento que uma situação dessas exige de fato. De fato, o que eu sabia é que agora você já habitava meu texto... inventando palavras para antigas descobertas recentes... trocando as regências convencionais previstas nos dicionários por termos que só fazem sentido (se é que há alguma necessidade de sentido nesse sentir) na nossa língua ambígua e mútua. Múltipla.
Erramos? Impossível afirmar ou negar. Mas eu só não podia errar! Sinto que nos faltou uma estratégia. Faltou-nos uma razão para conduzir o tato, o abraço, a constatação do sexo urgente - minha fala me trai, (nova)mente. Nossa falha, talvez, tenha sido não intervir nessa rotina ingênua dos dias que sucedem acumulados... e que se espalham entre sonhos e delírios igualmente ingênuos...
Não quero que nos julguemos. Não. Não quero avaliações precoces para uma possibilidade que se insinua tão desprevenida em sua forma. Deixemos que o texto flua em sua sintaxe própria: a nossa.
Você define/descreve muito bem o instante caótico desse (des)encontro. Concordo de imediato com sua teoria peculiar: alegria e bem-estar nos levam a perturbações imensuráveis. Indescritíveis. Eu já tinha noção disso desde o primeiro beijo...
No mais perfeito dos mundos, estar feliz só causaria uma sensação eufórica e efêmera de paz, alinhando hormônios, músculos, circulação sanguínea... Mas agora que você faz parte do meu discurso (e eu sem saber como você), a contradição está posta. Quando me dei conta, seu vocabulário já estava contemplando minha escrita, já vislumbrava a confusão plena. Não houve tempo para uma reflexão fria e calculista como conviria. Com o distanciamento que uma situação dessas exige de fato. De fato, o que eu sabia é que agora você já habitava meu texto... inventando palavras para antigas descobertas recentes... trocando as regências convencionais previstas nos dicionários por termos que só fazem sentido (se é que há alguma necessidade de sentido nesse sentir) na nossa língua ambígua e mútua. Múltipla.
Erramos? Impossível afirmar ou negar. Mas eu só não podia errar! Sinto que nos faltou uma estratégia. Faltou-nos uma razão para conduzir o tato, o abraço, a constatação do sexo urgente - minha fala me trai, (nova)mente. Nossa falha, talvez, tenha sido não intervir nessa rotina ingênua dos dias que sucedem acumulados... e que se espalham entre sonhos e delírios igualmente ingênuos...
Não quero que nos julguemos. Não. Não quero avaliações precoces para uma possibilidade que se insinua tão desprevenida em sua forma. Deixemos que o texto flua em sua sintaxe própria: a nossa.
sábado, 20 de novembro de 2010
ultimato
Olha aqui; se você acha que eu vou me contentar com essa sua falta de tempo, vai logo esquecendo. Não sou mulher de pouco, não. Você acha que me produzi, me perfumei, só pra ficar aqui olhando pra sua linda carinha e pronto? Está completamente enganado, viu?
Preste atenção: Quero mais! Muito mais. Tá ouvindo? Não tô pra brincadeira, não! Se estou aqui, é porque pensava em arrancar mais do que o lacre desse copo de água... vê só! Acha que vou me satisfazer matando apenas a sede? Até parece!!!
Vim porque sabia o que eu estava buscando... Vim porque quero seus beijos (todos) invadindo minha boca, quero você me deixando insanamente excitada... e depois saciada! Tá me ouvindo? Estou aqui agora!! E não me contento com pouco...
A menos que seja tudo o que você tem pra me dar...
Preste atenção: Quero mais! Muito mais. Tá ouvindo? Não tô pra brincadeira, não! Se estou aqui, é porque pensava em arrancar mais do que o lacre desse copo de água... vê só! Acha que vou me satisfazer matando apenas a sede? Até parece!!!
Vim porque sabia o que eu estava buscando... Vim porque quero seus beijos (todos) invadindo minha boca, quero você me deixando insanamente excitada... e depois saciada! Tá me ouvindo? Estou aqui agora!! E não me contento com pouco...
A menos que seja tudo o que você tem pra me dar...
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