A noite se estende feito um véu branquinho e sem imperfeições. Textura frágil. As palavras dançam na minha frente em movimentos instáveis: ora se aglomeram concisamente em versos perecíveis, ora se prolongam numa narrativa prolixa e profunda. Verbos soltos pedem complementos noturnos mais constantes e menos transitórios. É a insônia intransitiva que vem inspirar minhas horas...
Seu nome. Sempre você... deslizando na ponta dos meus dedos: outro conto de fadas tecido. A pele. Meus costumeiros desejos (tão prostrados nos seus argumentos atemporais) pedem urgência. Sua habilidade com a matéria... seu talento em representar os papéis que não lhe cabem. Porque você é ardiloso demais quando manipula o que vai por dentro de mim. Sim... no meu lado de dentro: você.
Mais uma vez eu me deito na cama que exige seu corpo e sonho. De olhos quase abertos, na escuridão da realidade impregnada nas paredes de pintura envelhecida, você clareia fantasias e conveniências conjugais. Só pra mim... E é tão denso o que penso sobre você... quando você está sobre mim, no mais íntimo do meu interior. Você amarrotando os lençóis... desorganizando o frio desta cama solitária, que aguarda o gozo e guarda a marca de dois falsos amantes.
No criado-mudo, sua fala sussurra... voz que ressoa em flores, caixas, livros, borboleta... tudo me fala de você nesta noite insone. Suas mãos me tocam em dobraduras e significados desconhecidos. Seu olhar presente brilha e ilumina meu quarto pensante. Seus gatos pisando macio na superfície do meu verso no cio... Fica aqui, nesta cama, a promessa(?) de um desejo sem pressa a penetrar nos pontos inatingíveis da memória que dói. Nesta cama, nesta noite, eu, só, deliro. Divago. Declino. Me aprumo... Só não durmo.
sexta-feira, 31 de maio de 2013
terça-feira, 28 de maio de 2013
possível final para um romance impossível
Assim, sem escândalo. Mas, ao mesmo tempo, denunciando. Sim, cansei das metáforas. Desisto de todos os subterfúgios engendrados. Meus planos agora são tecidos às claras. Mas com discrição. Chego sorrateiramente à frente de sua janela, nessa rua tão movimentada onde você mora, e escancaro minha intimidade. Com letras garrafais exponho-me num clichê pobre e sem rima: ESTOU APAIXONADA.
Sob o texto, teço (entre parênteses) minhas considerações e ressalvas justificando o ato de vandalismo.
É só pra deixar bem visível. Porém eu sei que você conhece todos os pontos fracos do meu discurso. Quando eu finjo desconhecer o significado daquilo que você não diz. Quando você disfarça e muda de assunto. Quando nós declinamos.
Sob o texto, teço (entre parênteses) minhas considerações e ressalvas justificando o ato de vandalismo.
É só pra deixar bem visível. Porém eu sei que você conhece todos os pontos fracos do meu discurso. Quando eu finjo desconhecer o significado daquilo que você não diz. Quando você disfarça e muda de assunto. Quando nós declinamos.
segunda-feira, 27 de maio de 2013
imagens
Ando pálida de imagens... Carente de metáforas. Tudo dentro minimiza. Você. No espelho interior, vejo a silhueta perfeita das suas inconstâncias e amenidades imprevisíveis. Hoje postei um cartão-postal com a foto que tiramos naquele passeio que não realizamos. O caminho por onde nossa intenção percorreu inerte de gestos. Nossa viagem sublimada, imaginada, nada. Não há nada que eu possa guardar além da sua ausência arrogante e redefinida em cada mensagem sem resposta. É isso que alimenta meu verso. Num pedaço da folha de papel em que penso traçar a nossa história, rabisco mais um insight para um poema incluso:
Pergunto:
por que não sei
se o que falta
é tempo
ou assunto
(ou apenas vontade
de estar
junto)?
Pergunto:
por que não sei
se o que falta
é tempo
ou assunto
(ou apenas vontade
de estar
junto)?
domingo, 26 de maio de 2013
rascunhos de um silêncio que não quer calar
Permaneço emudecida. O silêncio tem sido meu tema preferido. Só consigo escrever silêncios imensos, com a intensidade profunda dos que amam o in(a)tingível. Vasculho os entulhos de romances que desmoronaram diante do menor abalo sísmico. Cismo com seu cínico sorriso escondido entre os escombros que restaram das estruturas frágeis e desprezadas.
Desperto com um aperto no peito. Aperto sua ausência. choro em iminência
Desperto com um aperto no peito. Aperto sua ausência. choro em iminência
segunda-feira, 6 de maio de 2013
(...)
Um comentário despretensioso me levou à definição mais precisa do que ele significa. "Por isso você sempre se refere a ele entre parênteses?". Talvez. (Essa é outra boa palavra para usar quando o assunto é ele.).
Percebi que ele "está" no prefixo de negação mais recorrente das minhas tentativas de definição... às vezes parece erro de digitação. Incógnita inconstante, incerto, ele sempre "in". Ele dentro. E sua presença a dissipar medos em mim. Disseminando sonhos. Sua voz latejando desejos: fantasias fazendo meu corpo vibrar na sua frequência. Uma onda ressonante: ele sussurrando deliciosas indecências sobre mim.
Na minha explícita entrega, a sintaxe insana rege nossa conjugação. Os corpos: textura texto pretextos tecidos palavras sem sentido (em todos os sentidos). Bagunça léxica e sentimental. Nossa gramática não é capaz de produzir regras. Eu o leio, me deito em seu leito, e ele faz sua leitura de mim.
Percebi que ele "está" no prefixo de negação mais recorrente das minhas tentativas de definição... às vezes parece erro de digitação. Incógnita inconstante, incerto, ele sempre "in". Ele dentro. E sua presença a dissipar medos em mim. Disseminando sonhos. Sua voz latejando desejos: fantasias fazendo meu corpo vibrar na sua frequência. Uma onda ressonante: ele sussurrando deliciosas indecências sobre mim.
Na minha explícita entrega, a sintaxe insana rege nossa conjugação. Os corpos: textura texto pretextos tecidos palavras sem sentido (em todos os sentidos). Bagunça léxica e sentimental. Nossa gramática não é capaz de produzir regras. Eu o leio, me deito em seu leito, e ele faz sua leitura de mim.
domingo, 21 de abril de 2013
parágrafo único
Nós: sujeitos indeterminados e indefinidos. Declinamos regências. Flexionamos. Joelhos e palavras. Qual a melhor posição para as interjeições nessa escrita? Trocamos o lugar das metáforas dentro da frase impronunciável. Gosto da transitoriedade do verbo que conjugo no seu corpo-lar. A casa lar. Gosto do encadeamento dos (pro)nomes recitados silenciosamente... em sussurros.. cicios... A falta de ar dos sujeitos que dispensam vírgulas entre seus predicados e reverberam... em nós.
sábado, 30 de março de 2013
silencio
O silêncio que mora em mim não tem outro nome. Mudo. O verbo sem conjugação possível para a sua pessoa. Mudo. Calo o amor que implode por dentro e impede que meu organismo funcione plena mente. Um corpo inerte traduzido em braile. Mudo. Tudo o que gira sobre mim tangencia um desejo reprimido de amar a sua palavra. Gestos imprecisos contornam a sintaxe perfeita de um discurso em desconstrução permanente. Eu sou a mulher que engole os neologismos que você inventa para amenizar a concretude dos meus substantivos amargos e ácidos. Você discorre. Você diz: "Corre!". E eu permaneço. Absorta e diluída. Me liquefaço em rimas aparentemente profundas e naufrago nos vocábulos interrompidos que você dispara quando me diz: "Para!". Eu não digo. Eu não paro. Não ando. Não corro. Morro. Mudo meu verso. Meu verso mudo. Falo. No meu verso sempre falo (de você).
domingo, 17 de março de 2013
notas avulsas
Acordo com seu nome. Na minha boca você tem gosto inconfundível. O prazer, o gozo, o desejo. Tudo tem o mesmo gosto que o seu nome na minha boca quando acordo. E suas palavras ressoam pelos cantos da casa. No quarto, as paredes recendem a gozo. Reacendem o gosto. Impregnadas. Na cama em que você depositou as últimas gotas de um gozo infinitamente pleno reverbera o silêncio contundente do seu corpo. Sempre achei "engraçado" seu jeito silencioso de gozar, contrastando com meu gemido ensurdece-dor. E hoje acordar com você na cabeça, feito ideia fixa, foi qualquer coisa... algo assim como perturbador.
Na mesa do café da manhã seus passos rondando os espaços e rituais que você nunca frequentou. Hábitos solitários que nunca pluralizamos por sabermos dos riscos. Intimidade em excesso poderia nos tornar mais distantes. Viro o líquido da xícara como quem está a sorver uma dose de veneno. Amargo. Degusto sua ausência à mesa sentindo um incontrolável esvaziamento do corpo. Não me lembro de ter sentido sua falta ali de forma tão insistente.
A imagem irrefletida no espelho destoa da cena.
Fujo para o meu refúgio mais seguro: o trabalho. Me escondo entre as linhas que algum autor desavisado deixou para eu revisar. Eles (esses autores outros) não sabem que você é minha melhor inspiração. Eles gastam os dedos no teclado para me dar mais trabalho. Escrevem suas fórmulas e equações, regras e muletas textuais sem usar a artéria mais preciosa a um escritor (de verdade). Eles escrevem, sem carregar a verve.
E é por isso que eu deixo o trabalho de lado e paro para ler você. Suas palavras parecem vir da minha boca! Sua narrativa permeia meus sentidos como quem rabisca garatujas incompreensíveis. Seus verbos me excitam a língua e eu salivo seus poemas como se estivesse a balbuciar... Às vezes seu sujeito fala em primeira pessoa e eu o leio como vocativo. Um chamamento.
Coincidência ou não, ontem li dois textos que me remetiam a você... e eu me permiti viajar na possibilidade de escrever para você contando meus desejos reais. Minhas aspirações ensandecidas e minhas (ins)pirações recorrentes.
Vários filmes me vêm à mente. Penso na trilha sonora: "gosto do seu gosto musical". Concluo: eu gosto do seu gosto visceral.
Agora tudo faz sentido.
Tudo é sentido.
Na mesa do café da manhã seus passos rondando os espaços e rituais que você nunca frequentou. Hábitos solitários que nunca pluralizamos por sabermos dos riscos. Intimidade em excesso poderia nos tornar mais distantes. Viro o líquido da xícara como quem está a sorver uma dose de veneno. Amargo. Degusto sua ausência à mesa sentindo um incontrolável esvaziamento do corpo. Não me lembro de ter sentido sua falta ali de forma tão insistente.
A imagem irrefletida no espelho destoa da cena.
Fujo para o meu refúgio mais seguro: o trabalho. Me escondo entre as linhas que algum autor desavisado deixou para eu revisar. Eles (esses autores outros) não sabem que você é minha melhor inspiração. Eles gastam os dedos no teclado para me dar mais trabalho. Escrevem suas fórmulas e equações, regras e muletas textuais sem usar a artéria mais preciosa a um escritor (de verdade). Eles escrevem, sem carregar a verve.
E é por isso que eu deixo o trabalho de lado e paro para ler você. Suas palavras parecem vir da minha boca! Sua narrativa permeia meus sentidos como quem rabisca garatujas incompreensíveis. Seus verbos me excitam a língua e eu salivo seus poemas como se estivesse a balbuciar... Às vezes seu sujeito fala em primeira pessoa e eu o leio como vocativo. Um chamamento.
Coincidência ou não, ontem li dois textos que me remetiam a você... e eu me permiti viajar na possibilidade de escrever para você contando meus desejos reais. Minhas aspirações ensandecidas e minhas (ins)pirações recorrentes.
Vários filmes me vêm à mente. Penso na trilha sonora: "gosto do seu gosto musical". Concluo: eu gosto do seu gosto visceral.
Agora tudo faz sentido.
Tudo é sentido.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
do que somos feitos
Já faz quase uma semana que minha vida deveria ter voltado ao normal. Mas nunca se volta a ser o mesmo depois de uma experiência tão intensa. As pernas ficam cambaleantes sem motivo, não se equilibram com a mesma arrogância de antes, quando eu dizia cheia de orgulho "não preciso de ninguém para seguir meu caminho". As coisas acontecem e fraturam nossa petulância, as cicatrizes visíveis denunciam o estrago.
Ontem eu parecia mais segura quando olhava no espelho e refletia a esperança de um encontro. Já faz uma semana que me escondo dos espelhos. Tranquei as imagens daquele reflexo num ponto inusitado e convergente com a nossa história. Já faz uma semana que eu praticamente me prostro diante das lembranças inerte e incandescente. Apática e vulcânica. Kafkanianamente irreconhecível aos olhos de qualquer desatento observador.
As fraturas se manifestam em partes menos necessárias para o equilíbrio do corpo. É como se a matéria tivesse sido atropelada por emoções tão fortes que se encontra agora em estado de decomposição.
Sim, primeiro foram as pernas, os braços (que eu julguei doerem por falta de um corpo no abraço), as costas, toda a extensão da coluna, o pescoço... e também o peito, o tórax, eu digo, ali parece que a devastação foi maior... e a boca (vazia), os olhos (vazios)... e a cabeça (vazia): tudo vai doendo conjuntamente, feito engrenagem, tudo encaixado para doer.
E já faz quase uma semana...
Ontem eu parecia mais segura quando olhava no espelho e refletia a esperança de um encontro. Já faz uma semana que me escondo dos espelhos. Tranquei as imagens daquele reflexo num ponto inusitado e convergente com a nossa história. Já faz uma semana que eu praticamente me prostro diante das lembranças inerte e incandescente. Apática e vulcânica. Kafkanianamente irreconhecível aos olhos de qualquer desatento observador.
As fraturas se manifestam em partes menos necessárias para o equilíbrio do corpo. É como se a matéria tivesse sido atropelada por emoções tão fortes que se encontra agora em estado de decomposição.
Sim, primeiro foram as pernas, os braços (que eu julguei doerem por falta de um corpo no abraço), as costas, toda a extensão da coluna, o pescoço... e também o peito, o tórax, eu digo, ali parece que a devastação foi maior... e a boca (vazia), os olhos (vazios)... e a cabeça (vazia): tudo vai doendo conjuntamente, feito engrenagem, tudo encaixado para doer.
E já faz quase uma semana...
domingo, 13 de janeiro de 2013
poda
Depois de passar os dias arrancando pétalas de flores murchas do jardim, desfolho, hoje, todas as lembranças que compunham aquela história desarvorada.
As raízes pedem solos mais enriquecidos para se aprofundar! A semente que carregamos em bagagens separadas não vingou. Permaneceu muda, ainda que tenhamos tentado dizer "adeus" numa tarde ensolarada.
As raízes pedem solos mais enriquecidos para se aprofundar! A semente que carregamos em bagagens separadas não vingou. Permaneceu muda, ainda que tenhamos tentado dizer "adeus" numa tarde ensolarada.
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