quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

cronicamente impublicável

"Meu amor,
Tenho escrito diariamente para você, não sei se percebeu. Digo não saber, pois não chegam até mim suas respostas! E isso tem tornado meus dias simplesmente entediantes. Lembro-me de um Ano-Novo em que aconteceu algo parecido: pelo celular, eu lhe enviava mensagens (a mesma sempre) cumprimentando-o pela passagem de ano, mas como a operadora não me informava o recebimento pelo destinatário, e você não respondia,  eu achava mais seguro reenviar, nunca fui de confiar nessas entregas tecnológicas! Então, tendo eu já passado por essa experiência traumatizante, escrevo para você todos os dias... e, com medo de uma operadorazinha me boicotar novamente, reforço a entrega por outros meios de comunicação que eu julgo mais seguros (como email, facebook, correios). Não é que eu seja insegura, mas quero ter certeza de que meus poemas, minhas cartas, meus bilhetes, minhas palavras, enfim, chegarão até você.
Bom, como eu disse no começo, tenho escrito muito pra você, mas não sei se minha correspondência tem alcançado seu destino.Se você não recebeu nada do que enviei anteriormente, não se preocupe, apenas me avise (negue ou confirme) e eu reenvio, sem problema nenhum.. tenho cópia de todas as mensagens!
Mas eu só queria mesmo que você soubesse que sinto muita falta das suas respostas e estou com muita saudade de você."

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Cliquei em "ENVIAR" e desliguei o computador. Era segunda-feira e eu ainda tinha um sono acumulado da viagem feita no fim de semana. Adormeci antes mesmo de desligar a TV.

A semana está passando depressa; com tantas pendências a serem resolvidas, mal tenho tempo de atualizar meu perfil no face. Vejo apenas as postagens dos amigos mais próximos e checo se você mandou alguma resposta a qualquer uma das mensagens que lhe encaminhei. Já estamos na quarta-feira e nada. Mas hoje é dia de ler a coluna do Ivan Martins (e claro escolher uma frase que eu gostaria de ter escrito para você). Alguém postou um link cujo título mais me lembra um luminoso de tão familiar "Assunto urgente"*.
Constrangida, leio a crônica publicada no jornal que você, como bom jornalista, tem costume de criticar. Primeiro rio, parece que aquele teria sido o mote do dia! Aí, paro, fecho a cara e penso "no mesmo dia? Assim ele vai pensar que eu copiei a ideia, péssimo isso". E com toda impaciência do mundo corro para relatar (você sabe que eu tenho essa mania condenável de me explicar) que tudo não passa de uma infeliz coincidência.
O que me incomodou, na real, foi a insistência na fórmula que eu julgava ter descoberto ao escrever para você! "Até o título é igual! E eu acabo de mandar um e-mail pedindo desculpas pelo subterfúgio!", reflito quase em voz alta. É bem verdade que a gente vive se plagiando... (sempre que você me diz "sou um plágio", eu digo que essa fala é minha, não é mesmo?). Mas eu não tive a intenção de plagiar ninguém!! Não dessa vez! Você precisa saber que tive essa ideia antes de ler qualquer coisa parecida para me inspirar. O fato é que tudo está minuciosamente atrelado. O título, a mensagem, os recursos estilísticos, até mesmo o nome da personagem... (se você abrir a última mensagem inbox que deixei para você no facebook, vai reconhecer),  tudo é intertextualidade!
Já vivi situações parecidas... mais de uma vez me vi numa saia-justa dessas... mas é que desta vez, conhecendo o tal texto, a minha verve ficou exposta. Sabemos (você e eu) que sou uma pessoa previsível; mas não a ponto de plagiar alguém descaradamente! E é melhor você me responder antes que eu use outros meios para minhas mensagens chegarem até você!


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* Assunto urgente - Gregorio Duvivier, Folha de S.Paulo, 10/02/2014

Carlos,
Não sei se você pegou o whatsapp que eu te mandei, avisando que eu tinha te mandado uma mensagem via SMS. A mensagem era referente ao e-mail que eu te enviei pedindo desculpa pela quantidade de recados que eu deixei na sua caixa postal, onde li em voz alta as mensagens que eu te mandei por "inbox". Eu sei que exagerei na quantidade de "inboxes", mas às vezes as mensagens vão parar na caixa "outros", sobretudo depois que a pessoa te bloqueou.
Comentei no seu Instagram que tinha tentado te mandar uma DM no Twitter, mas não tinha conseguido porque você não me seguia. Na DM te perguntava se você ainda usa Orkut. Lá te mandei um monte de testimonials (não é pra aceitar, é só pra ler), perguntando seu novo endereço, porque as cartas que te mando têm voltado, assim como os telegramas. Pensei em te mandar um fax, mas logo lembrei que queimei o meu fax na fogueira que fiz pra te mandar sinais de fumaça, que causou um incêndio no prédio, que resultou na minha expulsão, que acabou me trazendo pra casa em que estou hoje.
Me mudei e custei a perceber que você talvez estivesse escrevendo para o meu endereço antigo. Pensei em passar no meu antigo prédio pra checar se não havia cartas suas por lá, mas lembrei que não sou benquista no bairro, depois do incêndio.
Pensei em passar no seu prédio, mas tampouco sou benquista por aí, por causa da maldita ordem de restrição. Por isso comprei um pombo, que passei um tempo tentando adestrar para buscar as cartas que você tem escrito pra mim. Amarrei uma mensagem no seu pé e mostrei o caminho da sua casa no mapa do iPhone. Atirei-o pela janela, mas ele nunca voltou. Pensei que ele talvez tivesse sido apreendido pela polícia. Reli a ordem de restrição, mas ela não faz menção ao envio de animais-de-correio. Concluí, então, que a culpa é da Apple, que definitivamente não sabe fazer mapas. Se por acaso vir um pombo pardo, perdidinho, com uma longa carta na pata esquerda, é o meu. Um conselho: quando for mandá-lo de volta, não use o mapa da Apple, use o Google Maps.
Hoje estou morando em um lugar agradabilíssimo, mas que insiste em me privar de caneta e papel, assim como das minhas mãos, que no momento estão presas em uma linda camisa branca de mangas longas (demais). Por isso te mando essa mensagem telepática, que peço que responda telepaticamente, pois de outro modo talvez não chegue até mim. Sempre sua, Carmen.


terça-feira, 31 de dezembro de 2013

último post do ano

Sim, não é por acaso que deixei para postar isto hoje. Dia 31 de dezembro é uma data significativa. Poderia ser qualquer dia do ano, mas algumas situações se tornaram inesquecíveis e eu sempre gosto de relatar! Por exemplo: quem se esqueceria de ter sido "abandonada" pelo namorado neste dia? Eu não consigo me esquecer disso até hoje, tantos anos passados... tantas aventuras recicladas... tanto sentimento desperdiçado. Também não esqueço que foi neste mesmo 31 de dezembro que alguém caiu de paraquedas na minha vida e me fez um mundo de promessas irrealizáveis. Claro que hoje, observando tudo à distância, compreendo que o lado bom dessa história existiu... pois foi daí que nasceu meu segundo filhote (mas com "outro pai"!!!). Penso que cada um tem mesmo uma "missão", um propósito ao passar pela vida da gente. E, apesar de essas duas pessoas de que falei terem sido realmente importantes (não que eu as tenha amado mais, estou querendo dizer em termos de importância mesmo, você entende?), é em você que eu penso em todo 31 de dezembro desde o primeiro ano em que o "conheci" (que "por coincidência" é o 31 de dezembro do mesmo ano!!). E é de você que eu quero falar hoje, neste 31 de dezembro que o mantém tão longe!
Hoje, diferentemente daquele 31 de dezembro, eu não mandarei SMS pro seu celular. Não que não queira... mas a quase certeza da falta de resposta é insuportável. Também não deixarei mensagem inbox no seu facebook, nem mandarei um whatsapp. Hoje, não haverá email registrando os votos que a convenção "pede", nem email confessando que, de todos os papéis que me cabem, o de amante é o que me agrada mais, porque não é preciso representar; é só ser. Hoje você não vai esperar uma ligação, um cartão, um bilhete, pois todas as nossas palavras estão em recesso, e o seu novo status me constrange. Mas, ainda assim, é em você que eu penso hoje, com a mesma intenção, com os mesmos desejos, com o mesmo amor...

sábado, 14 de dezembro de 2013

sobre cumplicidade e outros nomes para os sentimentos

Os sentimentos têm nomes diferentes para cada um. E eu fiquei assustada quando você me disse que gosta(va) da nossa CUMPLICIDADE. Minha falta de entendimento do seu vocabulário me levou a interpretações superficiais sobre sua declaração. E, embora eu aprecie incluir essa palavra no nosso discurso, senti certo descaso (da sua parte) com nosso caso! Pareceu-me que não deveríamos resumir a "isso" uma relação de afinidades tão densas! E, depois do beijo terno que trocamos... sua mão acariciando minha fragilidade exposta... eu fui me acalmando. Ao seu lado, com todas as emoções enroscadas entre as pernas, com todos os desejos emaranhados... em nós... eu comecei a pensar que denominamos distintamente as mesmas sensações. O que eu chamo amor, na sua narrativa, se lê cumplicidade. Mas eu só cheguei a essa conclusão hoje, depois de ler este texto:

"A cumplicidade numa relação sentimental é anseio de muita gente. Na prática, é evento raro e não é um subproduto automático do elo amoroso.

O primeiro ingrediente da cumplicidade entre duas pessoas [...] é a confiança recíproca: terem certeza da lealdade do parceiro.

A confiança recíproca deriva da honestidade intelectual de ambos e da disposição de deixarem seus parceiros cientes do que se passa com eles.

Para que os cúmplices se disponham a falar tudo o que vai em seu íntimo é imprescindível que seus parceiros não assumam posturas críticas.

Ao ouvir uma confidência, o que é cúmplice de verdade retribui com alguma outra intimidade: diz algo parecido que também tenha lhe ocorrido.

A cumplicidade depende, pois, do encontro de parceiros intelectualmente honestos, que sejam confiáveis e que não sejam críticos: não é fácil!"
Flávio Gikovate

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

epígrafe (ou apenas mais um clichê)

"Da primeira vez que fomos para a cama, foi no sofá. [...] Toda história de amor precisa de um café e de um bar. E de vinho. Tomamos vinho, portanto." 
(Julianna Motter)

Café, bar e vinho, não necessariamente nessa ordem, eu acrescentaria ao terminar a leitura do texto. Claro que me lembrei de nós dois. Pensando melhor, eu diria que o sofá em questão, o da primeira vez, é o meu. E usaria o verbo no presente para enfatizar a sua presença. Mas não deixaria de dizer que o seu sofá também acolheu nossos corpos...
Ou, ainda, voltando à trilogia essencial para uma história de amor, eu diria que o bar foi o pretexto, enquanto o vinho era contexto e o café... bem o café foi, pelo menos na nossa primeira vez, o metatexto. E, talvez por tudo isso, agora que nossa intertextualidade não comunga as mesmas entrelinhas, eu não consiga escrever a nossa história... 

E agora acabo de ouvir a música que pode perfeitamente servir de trilha sonora para este texto... (e me lembro até de ter mostrado a canção pra você.. Ai... que saudade!!!)
Chiara Civello



Passo e ripasso
Se posso ritorno
Io canto di notte
E dormo di giorno
Cerco e ricerco
Qualcosa di bello
Dentro il mio specchio
Nascondo un mistero
Non prometto niente
Me amo davvero
Quello che dico
Non e' sempre vero
Ma la mia ingenuita'
Stesa sul sofa'
Sfioa la tua pelle
Ti bacia
E poi se ne va
Metto e rimetto
Un vestito nuovo
Ad ogni sogno
Che trovo e ritrovo
Scelgo le stelle
Per il mio cielo
Sento e risento
Una sensazione
Che con il vento
Puo' cambiare nome
La puoi chiamare
Se vuoi distrazione
Ma ogni verita'
Nuda sul sofa'
Sfiora la mia pelle
Mi bacia e poi
Se ne va
Ma la mia ingenuita'
Stesa sul sofa'
Sfioa la tua pelle
Ti bacia e poi se ne va

domingo, 27 de outubro de 2013

imensamente ínfima

Me recolho no aconchego do seu silêncio. Amuada, sub(-)traio meu sentir para tomar a proporção desprezível e insignificante que você me proporcionou. Minimamente exposta, me encolho... (qual a Alice) me demoro no tamanho reduzido dentro do menor intervalo verbal que sua voz entoa. Ali... mergulho... me deixo transbordar. E a emoção entorna e se espalha por fronhas e frestas, enquanto me molham pequenas promessas... (Mesmo não acreditando, eu guardei suas promessas: o encontro sem pressa, o brinde/banho com o champanhe, a visita à nova moradia... um dia!) Me pergunto, à espera da sua calada resposta, onde eu jogo todo o presente? O que faço com os restos do passado? Nada. Nada disso cabe na mulher de letra minúscula, verbo sem conjugação, no infinitivo, sem flexão possível, rima pobre, discurso sem sinônimos. Nada se fixa nos lençóis, nada segreda entre as quatro paredes. Diminuo também o volume da música para sentir mais alto o eco, o oco, o vácuo: o vazio da caixa postal.


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

ode ao tempo

Ternura
Vinicius de Moraes

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar
                                                                     [ extático da aurora.


(Texto extraído da antologia "Vinicius de Moraes - Poesia completa e prosa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 259.)

 Hoje comemoramos três anos do primeiro beijo. Você nem sabe, mas eu conto os dias, as horas, as palavras, tudo o que vem de você. Pode parecer meio adolescente, meio bobo. Mas eu contabilizo todos os nossos bons momentos. Coleciono lembranças de nossos encontros furtivos e felizes em suas melhores intenções. Não me leve a mal... é só uma maneira de reviver sempre o que é bom e permanece, apesar das rimas perecíveis e dos instantes voláteis que permeiam nossa história. 
O que importa, hoje, é que há três anos descobri que o gosto da sua saliva tempera o sabor que minha pele exala, quando sua libido fala a mesma língua que a minha.
Eu me lembro de tudo... de cada gesto... da cor difusa dos seus olhos... da chama que seu olhar lançou sobre minhas pernas... da sua habilidade manual, a destreza... sua boca vasculhando com intimidade meus secretos fetiches...
Da leveza sutil no jeito de me tocar, com suavidade e paixão, ao fogo ardente da vela, queimando meus receios e consumindo o ar que me faltava...
Do fundo musical improvisado (eu tão romântica, transgredindo convenções, coloco  The Cranberries para rodar e embalar nossa noite) à trilha sonora escolhida a dedo em noites amenas de carinho...
Do vinho que serviu de pretexto para nossa estreia ao texto propriamente sentido...  
Mas o que importa é que hoje completamos três anos de cumplicidade e mais alguma coisa que eu ainda sei que nome tem...


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

o nó(s) na garganta

Estou tentando há dias escrever sobre nós. Não o substantivo abstrato que fomos, quando os sonhos se amalgamavam enquanto nossos desejos se amavam. Não o complemento direto da pessoa plural que somos quando somamos nossas carências físicas e transmutamos prazer. Não o górdio - dileto assunto que omitimos da nossa inatingível comunicação.
Estou tentando escrever sobre nós. Há muito tempo.
Nós, que nunca atamos. Nós, que sempre sós.
Estou tentando escrever sobre nós: cegos. Nós desfeitos, sem amarras, sem pontas, sem laços.
Ainda há pouco li este poema e mais uma vez tentei...


"incomunicáveis

tu aqui
e eu com saudades
de ti

não do que és – do que foste
da alegria que havia
em teu rosto"

(líria porto)




sábado, 7 de setembro de 2013

sábado especial

Sábado passado, passei-o pensando em você. Passo a passo, passo por onde passei com você. Passeio pelas ruas por onde passamos juntos. Passagem obrigatória! Passo e paro na frente do bar onde você passou, pela primeira vez, a palma da mão sobre minhas coxas. Passo mal só de pensar! Um dia isso tudo será só passado e pode ser que nem eu nem você passemos por isso outra vez. Mas no sábado que passei por aqui, pensei em você... agora é tarde, já passou!

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

dobraduras & desdobramentos

Tenho tantos começos para o nosso romance, que me perco nas fantasias decorrentes do título (óbvio) que pulsa entre os dedos. Uma lista de citações colhidas nos seus escritos denuncia a dependência literal que minha imaginação tem de você. Ontem eu pensei em ignorar o início e partir para o clímax: conflitos, intrigas, tramas mirabolantes entrelaçadas: "Então, antes de fechar o caderno, eu escrevi mais uma frase do drama que quero apresentar a você." Frase sem efeito. Inútil elaborar situações artificiais para dar sentido aos escritos impulsivos que produzo para você ler.

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Imagino agora suas digitais deslizando por esta folha de papel... me sinto observada por seus olhos. Olhar à primeira lida. Eu... folheada... e o seu toque me faz mudar de sentido...
Certas habilidades são irresistivelmente sedutoras. Mãos. Você deveria saber. Certamente você sabe. Mas talvez o que não saiba, talvez não tenha noção, é que depois de acompanhar seus gestos dançando graciosamente, os dedos embaraçando movimentos sobre o papel! Depois de comprovar seu talento artístico com o papel colorido – verde: a nossa cor preferida! -, me tornei refém da sua destreza. Como já poderia ser previsto, eu que sou tão previsível não negaria o senso comum. Porque, ainda que pareça singular, sou tão comum... Queria mesmo fugir desse lugar-comum...
Mas o clichê é o que de mais original vem revelar, construir, compor esta ficção.
Eu tão sintética, sintática, tão gramaticalmente correta... não sou capaz de usar a objetividade em nenhuma oração. Acho que é por isso que prefiro os poemas. Acho que é por isso que, quando me ponho a brincar com as palavras, acabo escolhendo o poema.

domingo, 25 de agosto de 2013

prólogo

Procurando inspiração para começar a escrever aquela história, para, enfim, terminar depressa com aquela novela, foi que eu encontrei a sua narrativa. Estava lá, era um texto longo, de não-sei-quantos-mil caracteres, e incontáveis aventuras amorosas. Era tudo imperfeitamente engendrado; uma narrativa comum e sem sofisticação de estilo. Então era isso, pensei!, durante todo tempo vivemos a farsa de mais uma ficção. Trágica, dramática ou óbvia demais para os personagens que assumimos antes que a cortina se abrisse? Piegas é que não era. Você sabe manipular os substantivos com a precisão de um artesão. Você cria imagens inusitadas com as metáforas mais populares. E você seduz. Põe adjetivos doces para amenizar períodos nebulosos e desconexos. Sua linguagem atraente, palavras.
Na minha versão, os parágrafos tinham outra intenção. Eu usaria tons diversos para colorir aquelas mesmas palavras. Mas quem começou a discorrer sobre nós foi você; e por isso essas orações me pareciam fora de contexto.
Levei certo tempo para me acostumar com seu jeito desinteressadamente carinhoso. Demorei para "entender" aqueles sinais sutis e distorcidos de admiração. Mas você foi tecendo as páginas, encorpando o enredo... e quando eu menos esperava, você pôs o verbo na entrelinha que eu mantinha incompleta! 
Assim, sem muito critério sintático mesmo! Você simplesmente me fez objeto indireto daquele verbo intransitivo. E eu, que tenho por princípio fazer só o meu trabalho de revisão, me senti tão sem função naquela frase! Sugeri até que você revisse, que excluísse ou trocasse o sujeito. Eu queria que você fosse o sujeito. Queria que você não usasse tantas reticências ao me conjugar com seus defeitos. Eu queria... 
Mas o romance está no final, já desfilaram naquelas linhas, naquelas páginas, todas as idiossincrasias a que um amador  tem direito. 
(Pensei agora como é bom escrever poemas... a licença poética nos livra dessas armadilhas!)


“Y debo decir que confío plenamente en la casualidad de haberte conocido. Que nunca intentaré olvidarte, y que si lo hiciera, no lo conseguiría. Que me encanta mirarte y que te hago mío con solo verte de lejos. Que adoro tus lunares y tu pecho me parece el paraíso. Que no fuiste el amor de mi vida, ni de mis días, ni de mi momento. Pero que te quise, y que te quiero, aunque estemos destinados a no ser.”
(julio cortázar)