Um comentário despretensioso me levou à definição mais precisa do que ele significa. "Por isso você sempre se refere a ele entre parênteses?". Talvez. (Essa é outra boa palavra para usar quando o assunto é ele.).
Percebi que ele "está" no prefixo de negação mais recorrente das minhas tentativas de definição... às vezes parece erro de digitação. Incógnita inconstante, incerto, ele sempre "in". Ele dentro. E sua presença a dissipar medos em mim. Disseminando sonhos. Sua voz latejando desejos: fantasias fazendo meu corpo vibrar na sua frequência. Uma onda ressonante: ele sussurrando deliciosas indecências sobre mim.
Na minha explícita entrega, a sintaxe insana rege nossa conjugação. Os corpos: textura texto pretextos tecidos palavras sem sentido (em todos os sentidos). Bagunça léxica e sentimental. Nossa gramática não é capaz de produzir regras. Eu o leio, me deito em seu leito, e ele faz sua leitura de mim.
segunda-feira, 6 de maio de 2013
domingo, 21 de abril de 2013
parágrafo único
Nós: sujeitos indeterminados e indefinidos. Declinamos regências. Flexionamos. Joelhos e palavras. Qual a melhor posição para as interjeições nessa escrita? Trocamos o lugar das metáforas dentro da frase impronunciável. Gosto da transitoriedade do verbo que conjugo no seu corpo-lar. A casa lar. Gosto do encadeamento dos (pro)nomes recitados silenciosamente... em sussurros.. cicios... A falta de ar dos sujeitos que dispensam vírgulas entre seus predicados e reverberam... em nós.
sábado, 30 de março de 2013
silencio
O silêncio que mora em mim não tem outro nome. Mudo. O verbo sem conjugação possível para a sua pessoa. Mudo. Calo o amor que implode por dentro e impede que meu organismo funcione plena mente. Um corpo inerte traduzido em braile. Mudo. Tudo o que gira sobre mim tangencia um desejo reprimido de amar a sua palavra. Gestos imprecisos contornam a sintaxe perfeita de um discurso em desconstrução permanente. Eu sou a mulher que engole os neologismos que você inventa para amenizar a concretude dos meus substantivos amargos e ácidos. Você discorre. Você diz: "Corre!". E eu permaneço. Absorta e diluída. Me liquefaço em rimas aparentemente profundas e naufrago nos vocábulos interrompidos que você dispara quando me diz: "Para!". Eu não digo. Eu não paro. Não ando. Não corro. Morro. Mudo meu verso. Meu verso mudo. Falo. No meu verso sempre falo (de você).
domingo, 17 de março de 2013
notas avulsas
Acordo com seu nome. Na minha boca você tem gosto inconfundível. O prazer, o gozo, o desejo. Tudo tem o mesmo gosto que o seu nome na minha boca quando acordo. E suas palavras ressoam pelos cantos da casa. No quarto, as paredes recendem a gozo. Reacendem o gosto. Impregnadas. Na cama em que você depositou as últimas gotas de um gozo infinitamente pleno reverbera o silêncio contundente do seu corpo. Sempre achei "engraçado" seu jeito silencioso de gozar, contrastando com meu gemido ensurdece-dor. E hoje acordar com você na cabeça, feito ideia fixa, foi qualquer coisa... algo assim como perturbador.
Na mesa do café da manhã seus passos rondando os espaços e rituais que você nunca frequentou. Hábitos solitários que nunca pluralizamos por sabermos dos riscos. Intimidade em excesso poderia nos tornar mais distantes. Viro o líquido da xícara como quem está a sorver uma dose de veneno. Amargo. Degusto sua ausência à mesa sentindo um incontrolável esvaziamento do corpo. Não me lembro de ter sentido sua falta ali de forma tão insistente.
A imagem irrefletida no espelho destoa da cena.
Fujo para o meu refúgio mais seguro: o trabalho. Me escondo entre as linhas que algum autor desavisado deixou para eu revisar. Eles (esses autores outros) não sabem que você é minha melhor inspiração. Eles gastam os dedos no teclado para me dar mais trabalho. Escrevem suas fórmulas e equações, regras e muletas textuais sem usar a artéria mais preciosa a um escritor (de verdade). Eles escrevem, sem carregar a verve.
E é por isso que eu deixo o trabalho de lado e paro para ler você. Suas palavras parecem vir da minha boca! Sua narrativa permeia meus sentidos como quem rabisca garatujas incompreensíveis. Seus verbos me excitam a língua e eu salivo seus poemas como se estivesse a balbuciar... Às vezes seu sujeito fala em primeira pessoa e eu o leio como vocativo. Um chamamento.
Coincidência ou não, ontem li dois textos que me remetiam a você... e eu me permiti viajar na possibilidade de escrever para você contando meus desejos reais. Minhas aspirações ensandecidas e minhas (ins)pirações recorrentes.
Vários filmes me vêm à mente. Penso na trilha sonora: "gosto do seu gosto musical". Concluo: eu gosto do seu gosto visceral.
Agora tudo faz sentido.
Tudo é sentido.
Na mesa do café da manhã seus passos rondando os espaços e rituais que você nunca frequentou. Hábitos solitários que nunca pluralizamos por sabermos dos riscos. Intimidade em excesso poderia nos tornar mais distantes. Viro o líquido da xícara como quem está a sorver uma dose de veneno. Amargo. Degusto sua ausência à mesa sentindo um incontrolável esvaziamento do corpo. Não me lembro de ter sentido sua falta ali de forma tão insistente.
A imagem irrefletida no espelho destoa da cena.
Fujo para o meu refúgio mais seguro: o trabalho. Me escondo entre as linhas que algum autor desavisado deixou para eu revisar. Eles (esses autores outros) não sabem que você é minha melhor inspiração. Eles gastam os dedos no teclado para me dar mais trabalho. Escrevem suas fórmulas e equações, regras e muletas textuais sem usar a artéria mais preciosa a um escritor (de verdade). Eles escrevem, sem carregar a verve.
E é por isso que eu deixo o trabalho de lado e paro para ler você. Suas palavras parecem vir da minha boca! Sua narrativa permeia meus sentidos como quem rabisca garatujas incompreensíveis. Seus verbos me excitam a língua e eu salivo seus poemas como se estivesse a balbuciar... Às vezes seu sujeito fala em primeira pessoa e eu o leio como vocativo. Um chamamento.
Coincidência ou não, ontem li dois textos que me remetiam a você... e eu me permiti viajar na possibilidade de escrever para você contando meus desejos reais. Minhas aspirações ensandecidas e minhas (ins)pirações recorrentes.
Vários filmes me vêm à mente. Penso na trilha sonora: "gosto do seu gosto musical". Concluo: eu gosto do seu gosto visceral.
Agora tudo faz sentido.
Tudo é sentido.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
do que somos feitos
Já faz quase uma semana que minha vida deveria ter voltado ao normal. Mas nunca se volta a ser o mesmo depois de uma experiência tão intensa. As pernas ficam cambaleantes sem motivo, não se equilibram com a mesma arrogância de antes, quando eu dizia cheia de orgulho "não preciso de ninguém para seguir meu caminho". As coisas acontecem e fraturam nossa petulância, as cicatrizes visíveis denunciam o estrago.
Ontem eu parecia mais segura quando olhava no espelho e refletia a esperança de um encontro. Já faz uma semana que me escondo dos espelhos. Tranquei as imagens daquele reflexo num ponto inusitado e convergente com a nossa história. Já faz uma semana que eu praticamente me prostro diante das lembranças inerte e incandescente. Apática e vulcânica. Kafkanianamente irreconhecível aos olhos de qualquer desatento observador.
As fraturas se manifestam em partes menos necessárias para o equilíbrio do corpo. É como se a matéria tivesse sido atropelada por emoções tão fortes que se encontra agora em estado de decomposição.
Sim, primeiro foram as pernas, os braços (que eu julguei doerem por falta de um corpo no abraço), as costas, toda a extensão da coluna, o pescoço... e também o peito, o tórax, eu digo, ali parece que a devastação foi maior... e a boca (vazia), os olhos (vazios)... e a cabeça (vazia): tudo vai doendo conjuntamente, feito engrenagem, tudo encaixado para doer.
E já faz quase uma semana...
Ontem eu parecia mais segura quando olhava no espelho e refletia a esperança de um encontro. Já faz uma semana que me escondo dos espelhos. Tranquei as imagens daquele reflexo num ponto inusitado e convergente com a nossa história. Já faz uma semana que eu praticamente me prostro diante das lembranças inerte e incandescente. Apática e vulcânica. Kafkanianamente irreconhecível aos olhos de qualquer desatento observador.
As fraturas se manifestam em partes menos necessárias para o equilíbrio do corpo. É como se a matéria tivesse sido atropelada por emoções tão fortes que se encontra agora em estado de decomposição.
Sim, primeiro foram as pernas, os braços (que eu julguei doerem por falta de um corpo no abraço), as costas, toda a extensão da coluna, o pescoço... e também o peito, o tórax, eu digo, ali parece que a devastação foi maior... e a boca (vazia), os olhos (vazios)... e a cabeça (vazia): tudo vai doendo conjuntamente, feito engrenagem, tudo encaixado para doer.
E já faz quase uma semana...
domingo, 13 de janeiro de 2013
poda
Depois de passar os dias arrancando pétalas de flores murchas do jardim, desfolho, hoje, todas as lembranças que compunham aquela história desarvorada.
As raízes pedem solos mais enriquecidos para se aprofundar! A semente que carregamos em bagagens separadas não vingou. Permaneceu muda, ainda que tenhamos tentado dizer "adeus" numa tarde ensolarada.
As raízes pedem solos mais enriquecidos para se aprofundar! A semente que carregamos em bagagens separadas não vingou. Permaneceu muda, ainda que tenhamos tentado dizer "adeus" numa tarde ensolarada.
domingo, 30 de dezembro de 2012
posta-restante
Não espero respostas. Você não precisa responder a todos os textos que lhe envio.
Eu só escrevo para você porque acredito que sempre haja ainda mais uma frase, mais um advérbio modificando o rumo da nossa prosa desgovernada e imprecisa.
Não tenho nenhuma pretensão... nenhuma forma de cobrança.
Só escrevo para você para que você saiba que ainda invento regências para os verbos que aprendi a declinar depois que você substituiu o sujeito das nossas conjugações, tirou os plurais dos nós e mudou toda sintaxe da minha oração.
Não. Eu não escrevo para você supondo que você vai perder seu tempo lendo as minhas mal-intencionadas linhas. Não vislumbro um sinal de concordância entre nossos discursos desencontrados e antagônicos em sua essência.
Você não precisa retribuir nenhuma das minhas mensagens. Não precisa assinar recibo de recebimento nem nada. Você não precisa dizer nada.
Porque eu só escrevo para você para não desaprender a técnica... é só um exercício de memorização. Porque eu não quero esquecer nenhuma das tantas felicidades que descrevemos juntos, numa folha em branco. Escrevo porque não posso apagar a história intensa que traçamos. Um no outro. Outro no um. (Sei de cada um dos nossos adjetivos, de todos os nossos predicados... e é tão mais elegante escrever na primeira pessoa do plural!)
Você não precisar responder.
Você não precisa retribuir.
Você não precisa concordar.
Você só precisa existir para eu me inspirar... e escrever para você.
Eu só escrevo para você porque acredito que sempre haja ainda mais uma frase, mais um advérbio modificando o rumo da nossa prosa desgovernada e imprecisa.
Não tenho nenhuma pretensão... nenhuma forma de cobrança.
Só escrevo para você para que você saiba que ainda invento regências para os verbos que aprendi a declinar depois que você substituiu o sujeito das nossas conjugações, tirou os plurais dos nós e mudou toda sintaxe da minha oração.
Não. Eu não escrevo para você supondo que você vai perder seu tempo lendo as minhas mal-intencionadas linhas. Não vislumbro um sinal de concordância entre nossos discursos desencontrados e antagônicos em sua essência.
Você não precisa retribuir nenhuma das minhas mensagens. Não precisa assinar recibo de recebimento nem nada. Você não precisa dizer nada.
Porque eu só escrevo para você para não desaprender a técnica... é só um exercício de memorização. Porque eu não quero esquecer nenhuma das tantas felicidades que descrevemos juntos, numa folha em branco. Escrevo porque não posso apagar a história intensa que traçamos. Um no outro. Outro no um. (Sei de cada um dos nossos adjetivos, de todos os nossos predicados... e é tão mais elegante escrever na primeira pessoa do plural!)
Você não precisar responder.
Você não precisa retribuir.
Você não precisa concordar.
Você só precisa existir para eu me inspirar... e escrever para você.
domingo, 16 de dezembro de 2012
(destr)oços do ofício
Não, este texto não deveria estar registrando minhas impressões. Mas o verbo insiste em trair minha indiferença e me faz analisar experiências profissionais com total passionalidade. Justo eu, que prezo pela correção da sintaxe, me vejo envolvida nas construções assustadoras da sua prosa inquieta. Tento controlar as flexões e os reflexivos pronomes das personagens que você manipula em mais um dos seus clichês. Faltam concordâncias, há excesso de intervenções e prosódias. Num único parágrafo, você erra a regência e eu contextualizo suas falhas em orações menos subordinativas. Mas seu discurso me confunde os conceitos e abala minha certeza. Misturo-me, então, aos figurantes que você escolheu como convidados para assistir com imobilidade ao desenrolar da sua narrativa inconstante. Oscilo diante da transitividade de suas ações. Sujeito-narrador. Você escreve para mim várias cartas sem remetente declarado. Eu não leio suas críticas dissimuladas nos comentários efusivos que você acrescenta às notas de rodapé que não explicam o comportamento inconjugável da terceira pessoa do plural no último capítulo desse romance.
("Elas" sou eu em variações múltiplas de papéis.)
Resolvo a questão elaborando um poema sumário e redefino o foco:
Quem é você, afinal,
(entre todos os eus que constrói)
só mais um predicado ou meu herói?
("Elas" sou eu em variações múltiplas de papéis.)
Resolvo a questão elaborando um poema sumário e redefino o foco:
Quem é você, afinal,
(entre todos os eus que constrói)
só mais um predicado ou meu herói?
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
como é difícil pôr um ponto-final numa história de reticências
Hoje, ao ler a poesia de todos os dias, eu percebi que os verbos estavam conjugados em nosso tempo. Pretérito imperfeito. E a constatação do meu imperativo rondava os sujeitos omissos nas frases que costumávamos apreciar.
Era uma vez uma poeta que se apaixonou pelo poema inacabado. E o verso ficou em branco. E a rima perdeu a graça. Era uma vez um poeta que amou uma borboleta (ou teria sido uma flor?) em segredo. E seu verso emudeceu. E sua rima perdeu o controle.
Hoje, quando eu abri meu caderno para rascunhar mais uma saudade de você, eu notei a folha envelhecida. Eu amassei os pronomes contidos em nossas páginas. E tentei inverter o sentido da metáfora metendo-a dentro do vazio ocupado pelo silêncio da sua verve, com as sílabas dissonantes que você calou.
Era uma vez um verbo em Pessoa, em preciso navegar, a concordância impessoal... Era uma vez a febre e o desejo do "Corpo" drummondiano... que já fora presente. Era uma vez todo um arsenal de finais felizes mutilados... Era uma vez um enredo perfeitamente articulado ao desfecho de nossas limitadas impossibilidades textuais. A gramática de nossas línguas alterada por declinações e cenas mal pontuadas. Era uma vez um predicado incompleto. Uma vírgula separando elementos indissociáveis nas veredas daquele ser tão inexpressivo. Era uma vez uma história dentro do romance que o passado não leu...
Era uma vez uma poeta que se apaixonou pelo poema inacabado. E o verso ficou em branco. E a rima perdeu a graça. Era uma vez um poeta que amou uma borboleta (ou teria sido uma flor?) em segredo. E seu verso emudeceu. E sua rima perdeu o controle.
Hoje, quando eu abri meu caderno para rascunhar mais uma saudade de você, eu notei a folha envelhecida. Eu amassei os pronomes contidos em nossas páginas. E tentei inverter o sentido da metáfora metendo-a dentro do vazio ocupado pelo silêncio da sua verve, com as sílabas dissonantes que você calou.
Era uma vez um verbo em Pessoa, em preciso navegar, a concordância impessoal... Era uma vez a febre e o desejo do "Corpo" drummondiano... que já fora presente. Era uma vez todo um arsenal de finais felizes mutilados... Era uma vez um enredo perfeitamente articulado ao desfecho de nossas limitadas impossibilidades textuais. A gramática de nossas línguas alterada por declinações e cenas mal pontuadas. Era uma vez um predicado incompleto. Uma vírgula separando elementos indissociáveis nas veredas daquele ser tão inexpressivo. Era uma vez uma história dentro do romance que o passado não leu...
sábado, 10 de novembro de 2012
pra você o meu melhor
Quando quero falar de você, procuro a melhor palavra, mas não sei qual o melhor momento. Para falar com você, busco sempre o melhor adjetivo, mas não sei qual a melhor construção. Quando quero encontrar você, escolho o melhor lugar, mas não sei se estou no melhor caminho. Se o assunto é você, teço a melhor trama, mas não sei se bordo a melhor cena. Sei, sim, que se é você que está em jogo, invisto minhas melhores intenções
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